A lembrança da morte em Tolstoi
- Afyl Brasil

- 13 de out. de 2024
- 3 min de leitura
“Li a história de um juiz que faleceu. Tinha apenas 40 anos, e havia alcançado o posto mais alto de sua carreira como magistrado. Era um homem aparentemente realizado: bela esposa, belos filhos, bela mansão. Amigos influentes, posição impecável no tribunal local.
Mas então, ocorreu algo inesperado – e, em certa medida, demasiado tosco: ele caiu, se desequilibrou da janela enquanto tentava arrumar algo qualquer. A queda não foi brutal, como poderiam imaginar, mas foi em verdade um escorregão infantil, de um metro somente, e que o fez bater a lateral do torso. Não precisou ir ao hospital, foi apenas uma batida singela, um inchaço lateral e nada mais.
A questão é que houve algo a mais. Foi muito mais. Foi algo, de fato, inesperado. A dorzinha na lateral começou a aumentar. E aumentou a ponto de fazê-lo ir com certa vergonha ao hospital. “É nada grave”, adiantou o médico que o prescreveu alguns analgésicos. Porém, a dor não se ausentou, mas tornou-se persistente, e, em um mês, a dor corrompeu o cotidiano do nobre juiz.
Já não dormia sem remédios – e mesmo medicado, não conseguia dormir. Ia ao tribunal carrancudo, não tinha prazer em passeios, não tinha prazer no carteado com os amigos, destribuia sentenças sem vigor.
Revirava-se no leito, resmungando das agulhadas que afligia o corpo. Não conseguia pensar em relações com a mulher. Na verdade, seu casamento, que já não era grande coisa, tornou-se insuportável. A esposa não suportava ouvi-lo gemer, e passou a dormir em outro quarto.
Então, os amigos se afastaram. Pois ninguém gosta da proximidade da dor, do espetáculo tenebroso que é ver uma pessoa definhar. E por isso, seus amigos o evitavam, pois o juiz estava sempre sentido dor e sempre resmungando dela.
A dor do juiz, em dois meses, tomou proporções avassaladoras. E ele já gritava, delirava. Não havia cura, mas sua esposa insistia em dizer que ele estava sendo “frouxo, ou relapso com o tratamento”. Mas ele tomava todos os remédios, e ainda assim, a dor não desistia.
Por ele ser um juiz, ele tentava engolir o sofrimento e manter o “decoro de juiz” quando estava na frente de estranhos. Mas sua vontade era chorar como criança e pedir colo e proteção. Não havia quem lhe desse isso, pois de um ente querido ele se tornou o doente indesejado. E, não demorou muito para que percebesse no olhar de sua própria família uma esperança de que ele viesse a morrer logo, pois assim se cessariam os gritos, os gastos com remédios, e o desgaste daquele cotidiano sofrido.
Ironicamente, aquele juiz tão rico e soberbo, encontrou consolo apenas em um simples empregado que, diante de sua própria simplicidade, tratava-o com compaixão. “Pode ser, doutor, que um dia seja eu quem sentirá dores e precisarei ser cuidado assim’. E, pela primeira vez, o juiz chorou como uma criança pelo deslumbre da compaixão. Não havia dinheiro, glamour, fetiche, honra, naquela dor. A dor é isenta de virtudes, ela torna o homem pequeno e desprovido de qualidades.
Por fim, o juiz morreu. Em dor, e apenas acolhido por um pobre empregado. Em seu funeral, os amigos olhavam o caixão com os pulmões cheios “Antes ele do que eu”. Discutiram quem poderia preencher o cargo do falecido, e ninguém quis saber se ele sentiu muita dor. O pensamento era repugnante. Ele se foi, bastava, mas o cargo ficaria.
O nome do juiz era Ivan Ilitch, o “Vânia”, como chamavam seus pais quando ele era criança. Ivan é um dos personagens mais interessantes das novelas de Leon Tolstói. “A Morte de Ivan Ilich” nos traz o memento mori, a lembrança de que somos ontologicamente determinados pela morte. E de que tendemos a ser fardos quando esta se aproximar. A única coisa que torna este fardo tolerável é a empatia, o vislumbre do respeito da sofrimento alheio. Empatia… empatia é o que nos falta”.






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